- Os pombos que nasceram este verão na nossa varanda, cresceram. A vida deles por lá tornou-se impossível - o lixo era mais que muito, a minha roupa lavada na corda ficava suja... Ontem, tirei-lhes todos os poleiros e lavei a varanda muito bem lavada. Pressionei-os para voarem e experimentarem a liberdade. À noite dois comentários: "Mãe, tu és má - tiraste a casa aos pombos" e "Mãe, eu sei que eles sujam a varanda mas fico triste de pensar que eles não têm casa para dormir."
- A minha sala, ontem, era uma verdadeira confusão - acho que não havia pedaço de soalho disponivel. Todos os livros e dossiers (dos 3) estavam espalhados no chão. Cada um organizava a sua mochila, os dossiers novos, o que era para levar e para ficar. Sozinhos. Tudo sozinhos. Imaginei que talvez muitas pessoas, se pudessem espreitar para dentro da nossa casa diriam que eu era uma Mãe muito má, que não os ajudava (imagino até uma voz a assobiar "o papel das mães é organizar a mochila dos filhos para que eles possam ir para a escola e não lhes falte nada")
Pois bem, hoje conversaremos sobre como foi importante "empurrar" os pombos para que fizessem voos para mais longe (passaram para o topo de um prédio vizinho). Lembrei-me da História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, do Luis Sepúlveda, da parte em que dizia assim: "Ditosa estava ali prestes a tentar o seu primeiro voo, (...) fizeram com que os gatos compreendessem que a gaivota desejava voar, embora ocultasse muito bem o seu desejo. (...) Zorbas permaneceu ali a comtemplá-la, até que não soube se foram as gotas da chuva ou as lágrimas que lhe embaciaram os olhos." Achei sempre que os pombos não fizeram o seu primeiro voo sem que as crianças chegassem para que elas podessem assistir. E ontem, era vê-los assim, como o Zorbas, num misto de alegria e de tristeza.
Quanto à minha sala, à desarrumação e a mim - senti-me mesmo bem, sem qualquer rasto de culpa e sem qualquer receio de que alguém aprecesse e me espiasse. Estava tudo como eu gosto - eu, na cozinha a fazer umas deliciosas bolachas de Sésamo para os lanches da escola (que foram finalizadas pela Matilde e pelo Zé Maria). Os miudos a organizarem o seu material, cada um à sua maneira, pedindo ajuda sempre que precisavam (e eu respondendo com apoio e disponibildade). Para mim é tão importante permitir-lhes esta autonomia, respeitar a sua organização, confiar-lhes a responsabilidade de que sabem realmente organizar o seu próprio material.
Que boa que é a vida aqui nesta nossa casa!




































