"- Mãe, porque é que temos trabalhos de casa (TPC's)?
- O que é que vocês acham?
- Para estudarmos mais.
- Para aprendermos mais.
- Sim, a vossa escola considera que os TPC's servem para os alunos treinarem mais o que aprenderam e poderem ser ainda melhores alunos mas eu tenho uma opinião diferente. Acho que quando vimos para casa há outras coisas importantes para fazermos...
- Pois. É importante conversarmos...
- Estarmos juntos...
- Fazer coisas giras e descansar.
- Podia dizer ao professor A. (responsável pelo 1º ciclo) que em vez de termos tanto tempo de intervalo, fazíamos mais trabalhos e depois já não trazíamos trabalhos para casa.
- Mas os intervalos são importantes, disse eu. Para descansarmos, para comermos, para irmos à casa de banho, para brincar...
- Mas temos muito tempo à hora de almoço, se em vez de 2h tivessemos só 1h já não precisávamos de trazer TPC's.
- Essa é uma ideia muito boa. Queres propô-la ao A.?
- Eu? Não. Diz-lhe tu.
- Já disse, afirmei eu. Já lhe disse o que pensava sobre os TPC's
- A sério?
- Sim. Se eu fosse a dona de uma escola, se eu mandasse numa escola, ela era muito diferente. A ti, podia pedir-te que escrevesses uma noticia sobre uma equipa de futebol, que pensasses como organizarias um torneio (quantas equipas, quantos jogadores, quantos jogos...), que pensasses no que os jogadores deveriam comer... E depois tinhas que me apresentar um projecto. A ti, podia pedir-te um projecto para construção de uma biblioteca e a ti que organizasses uma escola de ginástica. Que disciplinas precisavam de saber para fazer estes trabalhos?
- Todas! Disseram em coro.
Não sei se por acaso (acho que não, que eu não acredito em acasos!), no sábado quando fomos à biblioteca os meus olhos caíram num livro, também ele relacionado com escola - Dona Miquelina, o seu Filho a a Professora. Uma delicia! Que vale a pena e que me deixou a pensar: a capacidade de "entrar no mundo do outro" e dificil arte de aceitar as pessoas como são, sem estarmos sempre a querer mudá-las.
Eu que nos últimos tempos me sentia tão dividida entre aquilo em que eu acredito e aquilo que a escola dos meus filhos propõe, bombardeada por muitos "os pais devem... passar a mesma mensagem que a escola / reforçar o que a escola diz e manda fazer / não criar confusões na cabeça das crianças / devem acompanhar sempre os TPC's dos filhos / devem deixar a escola entrar pela família dentro". Na 6ª feira, com a leitura das palavras do Mário Cordeiro, libertei-me e fiquei em paz. Talvez por isso, pela primeira vez, tenha sido capaz de falar da minha escola de sonho aos meus filhos. Sem culpas, nem remorços. Assumindo a minha diferença relativamente aquilo que eles vivem diariamente.







































